Crónica do Vale III

…a da vantagem do uso de botas de borracha e porque é que eu ando sempre de chinelas.

CdV4

Já tentaram limpar um terreno de detritos, galhos e pedras? E arrastar troncos mortos de árvores? Já estiveram num terreno cheio de picos, espinhos, e tronquinhos espetados do chão? Saberão portanto a importância de usar o calçado adequado – tipo galochas – e de luvas de trabalho.

Começando por estas últimas. Sabem o difícil que é encontrar luvas do meu tamanho?!? As luvas de trabalho são aparentemente feitas para homens altos e espadaúdos com mãos do tamanho duma frigideira grande! Acabei por me conformar com luvas de jardinagem (que todas as farpas que tenho nos dedos atestam que não oferecem o mesmo tipo de protecção!) e, para cúmulo, dado o tamanho, ou as encontras com padrões floridos ou cor-de-rosa. *suspiro* Não tenho absolutamente nada contra o cor de rosa, mas suspiro ante a noção antiquada e conservadora que as mulheres não fazem outro tipo de trabalho mais pesados. Não que eu tenha a mesma força que um homem alto e espadaúdo com mãos do tamanho duma frigideira grande… Mas ainda assim, faço a minha quota! *palmadinhas nas minhas próprias costas*

O drama das botas de borracha é outro!

Verão.

Botas.

Calor…

Botas…

piiiiiiiiiiiii (linha plana no electroencefalograma).

E, assim, sigo eu, por montes e vales, de chinelas, com a gadanha ao ombro!

NOTA PARA O EU-FUTURO: Quando o senhor vier limpar o terreno da próxima vez, pedir-lhe que arraste todos os detritos para a extrema. *suspiro* live and learn!

 

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{ gratidão } 5 anos

{ pequenas grandes gratidões (normalmente) às 2ºfeiras }

Hoje estou grata por:

:: me acompanharem nesta aventura faz 5 anos!

Cinco anos de blog… pois é! Com uma grande interrupção de 2 anos, é verdade, mas já lá vão 5 anos de Nós!

Gratidão a todos os que nos têm acompanhado nesta terna, desafiante, incrível jornada!

gratidão19-9-17

Gratidão por cada amanhecer e a sua promessa de novas oportunidades de rir, crescer, sonhar, aprender, criar, amar… Em família! E venham mais 5! *suspiro interno ante a piada involuntária**alegremente trauteando tiririri buriririri… e pensando que esta música já não me vai sair da cabeça hoje*

Aaaahhhh!!! Gratidão!!! 😀

E vocês, que agradecem hoje?

:: inspirado em Snatam Kaur’s Gratitude Monday no Spirit Voyage:: 

{ momento }

Um ritual das 6ºfeiras. Uma fotografia – sem palavras – capturando um momento da semana. Um momento simples, especial e extraordinário. Um momento que quero congelar, saborear e recordar.

***

Se se sentirem inspirados deixem o link do vosso { momento } nos comentários do blog!

***

:: inspirado em SouleMama :: 

Crónica do Vale II

… a do género!

DSCN1491

Não sou uma pessoa particularmente dramática. Mas tenho definitivamente os meus momentos! Já a minha mãe dizia que era boa para ir para o teatro. E, anos mais tarde, depois de um curso de teatro, dizia-se por aí que eu até me desenrascava. Talvez seja um pouco dramática afinal…

Voltando ao assunto!

A questão do género não é, para mim, uma questão dramática! É uma questão que me desafia a não sair do meu centro. *suspiro* Ok, ok, é uma questão que me irrita profundamente!

“Ah, você é a senhora que quer comprar aquele terreno além?”

“Sou sim.”

“É um terreno grande! Vai lá viver?”

“Em princípio, sim.”

“É grande! Vai dar muito trabalho. Mas tem o seu marido, não é?”

(Suspiro interno. Vá, esta é velha e já a ouviste algumas vezes. Sê compassiva!)

“Não. Sou apenas eu e o meu filho.”

“Ah! E como vai fazer com aquele terreno todo?”

(Inspira. Expira. De verdade que não vale a pena chateares-te. Vá, sê compassiva! Lembra-te que vivemos ainda na sociedade que vivemos, ainda que em mudança, e que este senhor não conhece a tua identidade secreta de Super-Mulher!)

“Como fazem os outros: limpar, plantar e cuidar!”

“Sozinha?!?”

(Não respiro coisa nenhuma! Ok. Inspira. Expira. Está tudo bem!)

“Com o meu filho. E o meu cão. E o meu gato.”

“Ah!”

Meus senhores, eu sei usar uma enxada e uma pá e uma picareta! Eu li num livro!

Estou a brincar!

Mais ou menos…

Ahahah! Estou a brincar!

Pois…

O tema é que, por ser mulher, são levantadas mais questões sobre a minha competência em lides agrárias do que num homem. E posso-vos assegurar que a maior parte dos homens sabe tanto quanto eu, porque, convenhamos, nem todos os homens cresceram e/ou vivem em meios rurais.

Da mesma forma, aquando da construção da minha casa, tive que ser mais ríspida para que as coisas fossem feitas no tempo previsto e com a qualidade esperada, pois a minha autoridade era constantemente posta em causa. Algo que senti que não aconteceria a um homem, mesmo um que detivesse uma ínfima parte do conhecimento que eu tenho. Em quatro dias tive que os chamar de volta 3 vezes para corrigir as suas correções relativas a pequenas falhas na construção e instalações. Atenção! Imperfeições e aperfeiçoamentos, neste tipo de construção, são esperados. Mas esconder um buraco no chão flutuante (que tinha sido acabado de ser substituído!) com o meu próprio móvel… De verdade que esperavam que eu não notasse!?!? Respeitem, por favor, o cliché, pois eu, como boa dona de casa, varro sempre atrás dos móveis! … (Não é verdade! Há uns que são muito pesados… e às vezes, é porque não me apetece, e então?)

A verdade é que uma mulher adentrar-se em áreas de domínio maioritariamente masculino levanta algumas sobrancelhas, perturba alguns másculos egos, origina piadas machistas e/ou palmadinhas condescendentes nas costas. Mas sabem que mais? Gera também mudanças de paradigma! E é nisso que a minha geração vem contribuir! Porque os que vêm a seguir têm também a sua missão!

E tudo isto, estou a aprender, requer uma boa dose de energia, outra de assertividade, outra de humor e outra, muito grande, de Amor! ❤

{ gratidão }

{ pequenas grandes gratidões (normalmente) às 2ºfeiras }

Hoje estou grata por:

:: uma visita duma querida Irmãzinha de Alma com os seus pequenos, que enchem a casa, tornando-a num espaço de nutrição e partilhas.

:: cidras na praia, banhos de mar, escorregas aquáticos e conversas de alpendre. Estamos em férias, ou quê?

:: fudge de tahini e chocolate! É de outro mundo! E é só misturar todos os ingredientes e levar ao congelador. Assim de simples! Mmmmm (Às meninas que me pediram a receita, visitem o link 😉 )

:: a experiência do FATT, o Festival de Didjeridoo em Estômbar. Lindas gentes, lindas músicas, um embalo da Alma e Vida sentida dos pés à cabeça.

:: olhar a lista de projectos-a-fazer durante as minhas semanas sem o Ki e orgulhar-me do quanto consegui acabar. E, claro, faltam muitas mais coisas. Muitas! E, é verdade, olho em volta e sinto que não vejo nada feito… * pontada de desânimo * Aaaah, mas a satisfação de olhar a lista! A lista não mente!!! Certo?!?

:: os preparativos para o primeiro dia de escola primária! Não meu, pois! Do Ki. E daí… Lembro-me do cheiro dos novos cadernos, dos livros que eu ajudava a minha mãe a plastificar, o novo estojo das canetas, o cheiro dos novos lápis, e um novo ano escolar prestes a começar! Tantas possibilidades! Tanto conhecimento ali… pronto para mim! É normal eu estar mais entusiasmada que ele?!?

:: permitir-me a flexibilidade de vir, ou não, à internet – seja o blog, facebook ou todos estes espaços virtualmente sociais – pois a Vida chama-me frequentemente noutras direcções e requer a minha presença nos sucessivos momentos que a compõem.

:: me sentar a escrever { gratidão }  e sentir, no meio dum remoinho hormonal que nós Deusas bem conhecemos, que isto hoje ia ser um desafio pois só me apetecia gritar e esbracejar o quanto não estou grata por coisa alguma. E o desafio apresentado torna-se num lindo pretexto para adentrar as profundezas do Ser, ir mais fundo, sentir mais fundo e encontrar esse espaço onde o Amor existe e a Gratidão é imensa. Como não estar grata por estes dias (aparentemente) menos luminosos?

E vocês, que agradecem hoje?

:: inspirado em Snatam Kaur’s Gratitude Monday no Spirit Voyage:: 

 

{ momento }

Um ritual das 6ºfeiras. Uma fotografia – sem palavras – capturando um momento da semana. Um momento simples, especial e extraordinário. Um momento que quero congelar, saborear e recordar.

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Se se sentirem inspirados deixem o link do vosso { momento } nos comentários do blog!

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:: inspirado em SouleMama :: 

Crónica do Vale I

… a de me aperceber que os sonhos realmente se realizam e eu tenho um terreno!

CdV I

Yuuuhuuuu!

*  respirar *

Ok… Boa! 😀

* breve momento de pânico*

E agora? :S

Convenhamos! Eu não sou uma mulher do campo, não cresci no campo e a minha família nunca se dedicou a actividades do campo. As minhas avós já na década de 60 trabalhavam em escritórios. Que um dos meus avôs tivesse uma pequena horta com couves e algumas galinhas e coelhos não fez com que eu fosse privilegiada com aqueles preciosos conhecimentos ancestrais sobre cuidar da terra.

Tampouco a minha família está ligada à construção civil. Exceptuando algumas aventuras da minha mãe no mundo da bricolagem e da restauração de móveis, ou as cidades que eu e o meu primo Luís construíamos com livros para serem habitadas por barbies, playmobis, barriguitas e o eventual peluche.

Mas há em mim um desejo profundo de regressar às raízes, à Terra. É algo que sinto a nível celular e que me fez embarcar nesta aventura de cuidar duma Terra e viver de forma sustentável. Sinto que este é o meu caminho, que esta é a minha maneira de honrar a Grande Mãe, de proteger e cuidar a Terra, de a celebrar.

E em mim existe a certeza que são estas as experiências e vivências que quero proporcionar ao meu filho. É o meu desejo educá-lo para ser mais consciente, empático, responsável e sensível a todas estas grandes mudanças que presenciamos no Mundo e a compreender que todos temos um papel a desempenhar.

Voltando!

Ok, tenho um terreno! Eu sou boa com listas! O que preciso para já? Vejamos:

  • duma casa
  • água
  • eletricidade
  • duma horta
  • árvores de fruto
  • algumas ferramentas
  • uma boa dose de entusiasmo
  • uma boa dose de coragem
  • outra boa dose de meditação (porque tudo isto traz sempre uma boa dose de frustração)

Perfeito! Lista feita!

Pois…

A dificuldade é que cada um desses itens se subdivide em milhentas questões e milhentas outras decisões: Que casa?  Pré-fabricada, modular, de madeira, taipa? No chão, móvel ou em estacas? Que materiais? Se madeira, que tipo de paredes? Que espessura? Que tipo de isolamento? Qual a distribuição mais eficiente a nível energético? Área? Para compactar o terreno, é melhor brita ou tout-venant? Para começar, que raio é tout-venant?!? Qual o mais sustentável que permita uma boa drenagem do solo? Furo, poço ou barragem? Qual o melhor para este tipo de terreno? Valores? Ah, ok! Alternativas? Depósitos? Boa! Como fazer a ligação da água desde um depósito? Que material necessito para recolher a água da chuva? Como aproveitar as águas cinzentas? Primeiro, como ligar a saída das águas da casa para depois poder aproveitá-las?

Já estão cansados? 🙂 Vou parar então!

Como disse: EM.CADA.UM.DOS.ITENS!

Muita pesquisa, muitas conversas com quem sabe mais, … e uma grande dose de intuição! E na ausência desta – porque em momentos de stress nem sempre temos essa capacidade de escuta -, fazer figas e seguir em frente!

Porque eu… não sou uma mulher do campo.

Sou uma Mulher a redescobrir a Terra, ganhando Raíz!

 

*Foto: fazendo cimento para fortalecer os blocos que iriam suster a estrutura da casa móvel – Novembro 2016.